Com os cientistas a alertarem para a possibilidade de um El Niño particularmente intenso, especialistas e responsáveis políticos estão a recomendar que as famílias reforcem a preparação para episódios de mau tempo extremo.
Uma das recomendações é especialmente simples: ter em casa uma pequena reserva de alimentos capaz de durar alguns dias, para o caso de tempestades, cheias ou outras situações dificultarem temporariamente as deslocações, entregas ou acesso normal a supermercados.
O aviso surge depois de um estudo baseado em corais fossilizados das Ilhas Galápagos ter concluído que os episódios modernos mais intensos de El Niño parecem ser mais fortes do que os registados ao longo de grande parte dos últimos mil anos.
O artigo essencial que as famílias são aconselhadas a manter em casa
A principal recomendação não envolve equipamentos sofisticados nem grandes investimentos.
Trata-se simplesmente de manter uma reserva de alimentos não perecíveis suficiente para garantir alguma autonomia caso seja temporariamente difícil sair de casa ou receber compras.
A ideia é aumentar a capacidade de resistência das famílias perante situações meteorológicas extremas.
Segundo a responsável britânica pela pasta do Ambiente citada no artigo, ter alguma comida armazenada pode fazer uma grande diferença enquanto se aguarda pela normalização da situação ou pela chegada dos serviços de emergência.
“Se tiveres alguma comida guardada, estarás muito melhor preparado”
Angela Eagle explicou que a preparação doméstica pode ser importante caso acontecimentos extremos interrompam temporariamente a rotina.
“Se tiveres alguma comida armazenada que te permita aguentar durante algum tempo até os serviços de emergência conseguirem chegar, estarás numa situação muito melhor do que se não tiveres.”
A mensagem não é para comprar quantidades exageradas ou entrar em pânico.
O objetivo é simplesmente garantir uma pequena margem de segurança caso fenómenos extremos causem cortes de estradas, cheias ou dificuldades logísticas.
O El Niño pode provocar alterações profundas no estado do tempo
O El Niño é uma fase de aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico tropical.
Esse fenómeno consegue alterar padrões atmosféricos em várias regiões do planeta, influenciando temperaturas, precipitação e intensidade de alguns eventos extremos.
Dependendo da região, pode estar associado a secas severas, chuvas intensas, inundações e temperaturas anormalmente elevadas.
Não deve ser confundido com La Niña
Enquanto o El Niño está associado ao aquecimento anormal de determinadas águas do Pacífico, La Niña corresponde ao fenómeno oposto, com temperaturas mais baixas do que o habitual nessa região.
Ambos fazem parte de um dos sistemas climáticos mais importantes do planeta e conseguem influenciar o estado do tempo muito para além do oceano Pacífico.
Cientistas analisaram corais com centenas de anos
O novo alerta ganhou ainda mais atenção depois da divulgação de uma investigação liderada por Julie Cole.
A equipa analisou corais fossilizados das Ilhas Galápagos para reconstruir as temperaturas oceânicas ao longo de aproximadamente 1.000 anos.
Os corais conseguem preservar sinais químicos relacionados com as condições do oceano existentes no momento em que cresceram.
Ao estudar essas camadas, os investigadores conseguiram comparar os atuais episódios de El Niño com aquilo que aconteceu séculos antes da existência de registos meteorológicos modernos.
Eventos recentes parecem ser muito diferentes dos do passado
Segundo Julie Cole, uma das grandes dúvidas dos investigadores era perceber se os fortes eventos observados no final do século XX e início do século XXI eram realmente invulgares.
“Temos observado alguns eventos El Niño muito fortes e aquilo que não sabíamos era até que ponto eram incomuns.”
A análise dos corais indicou que os acontecimentos recentes apresentam uma intensidade difícil de encontrar no registo dos séculos anteriores.
As temperaturas mostraram uma variabilidade muito superior
Segundo os resultados divulgados, a variabilidade das temperaturas no Pacífico oriental terá aumentado significativamente em comparação com o período pré-industrial.
Os investigadores consideram que foram sobretudo os episódios mais quentes que ganharam intensidade.
Isso levanta a possibilidade de o sistema El Niño estar a responder ao aquecimento global de uma forma diferente daquela observada durante séculos.
ONU alerta para riscos cada vez maiores
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, deixou igualmente um aviso sobre a intensificação dos riscos climáticos.
Segundo as declarações citadas, Guterres afirmou que o planeta está a entrar num território cada vez menos familiar devido ao aquecimento das temperaturas.
“O planeta está a entrar em águas desconhecidas e essas águas estão a aquecer.”
O responsável das Nações Unidas acrescentou que a resposta terá de acompanhar a velocidade com que os riscos climáticos estão a aumentar.
Organização Meteorológica Mundial também deixa aviso
Celeste Saulo, secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, alertou que um El Niño intenso pode provocar impactos significativos em comunidades e economias de várias regiões do planeta.
Secas e inundações são dois dos principais riscos associados ao fenómeno.
Segundo a responsável, os efeitos poderão aumentar à medida que o El Niño se intensificar.
Ásia poderá enfrentar impactos particularmente graves
Angela Eagle chamou ainda a atenção para a possibilidade de algumas regiões asiáticas enfrentarem consequências mais severas.
Chuvas intensas e inundações podem provocar danos importantes em áreas densamente povoadas.
É precisamente por isso que especialistas defendem uma preparação antecipada, tanto a nível governamental como doméstico.
O Reino Unido também poderá sentir mudanças
Segundo as previsões citadas, um El Niño forte poderia contribuir para padrões meteorológicos mais extremos também no Reino Unido.
Entre as possibilidades referidas encontram-se verões mais secos, invernos mais húmidos e tempestades mais intensas.
No entanto, os efeitos concretos de um El Niño variam sempre de acordo com outros fatores atmosféricos e não podem ser previstos com absoluta precisão com grande antecedência.
Estados Unidos poderão sentir efeitos mais tarde
Nos Estados Unidos, o meteorologista sénior da AccuWeather Carl Erickson afirmou que alguns dos efeitos mais evidentes poderão surgir mais tarde no ano.
Segundo a previsão citada, o calor poderá prolongar-se durante setembro, antes da chegada de períodos mais frescos em outubro.
Tal como acontece noutras regiões, porém, a evolução concreta dependerá da intensidade final do fenómeno e de outros padrões meteorológicos.
2027 poderá trazer novos recordes de calor
O artigo refere ainda receios de que a combinação entre um El Niño forte e o atual nível de aquecimento global possa contribuir para temperaturas muito elevadas em 2027.
Os episódios de El Niño conseguem temporariamente aumentar a temperatura média global, sobretudo quando se combinam com uma tendência de aquecimento de longo prazo.
Isso não significa que exista já uma garantia de que todos os recordes serão ultrapassados, mas é uma das possibilidades que está a preocupar climatologistas.
É preciso armazenar comida em grandes quantidades?
Não.
A recomendação apresentada está mais relacionada com preparação básica para emergências do que com acumulação de grandes reservas.
Ter alimentos não perecíveis, água e outros bens essenciais suficientes para alguns dias pode ser útil em diferentes situações, não apenas durante um El Niño.
Tempestades, cheias, falhas de eletricidade ou interrupções nos transportes podem dificultar temporariamente o acesso normal a bens essenciais.
O alerta não significa que uma catástrofe seja inevitável
É importante sublinhar que um El Niño intenso não significa automaticamente que todas as regiões sofrerão uma catástrofe.
Os efeitos variam muito de país para país e até dentro da mesma região.
O aviso serve sobretudo para reforçar a necessidade de preparação perante fenómenos extremos que podem tornar-se mais frequentes ou intensos num clima mais quente.
A recomendação é simples: estar preparado sem entrar em pânico
A conclusão dos especialistas é relativamente prática.
Não é necessário transformar a casa num bunker nem comprar alimentos para vários meses.
Mas ter uma pequena reserva de comida e bens essenciais pode garantir alguma autonomia caso as condições meteorológicas tornem temporariamente impossível sair de casa ou receber abastecimentos.
Com novos estudos a apontarem para episódios modernos de El Niño particularmente intensos, a mensagem é sobretudo preventiva: preparar-se antes de uma emergência é muito mais fácil do que tentar encontrar tudo aquilo de que se precisa quando o problema já começou.