Há uma nova tendência a circular nas redes sociais entre casais que sentem que a vida sexual começou a perder espaço no meio da rotina: a chamada “regra das 72 horas”.
A ideia é simples. O casal tenta garantir algum tipo de intimidade física a cada três dias, seja através de relações sexuais ou de outra forma de proximidade física.
Como seria de esperar, a regra está a dividir opiniões. Há quem considere a ideia demasiado mecânica, cansativa e pouco espontânea. Outros defendem que pode funcionar precisamente porque obriga o casal a proteger um espaço que, de outra forma, acaba frequentemente engolido pelo trabalho, cansaço, filhos e responsabilidades do dia a dia.
A regra é simples: intimidade a cada três dias
A chamada regra das 72 horas parte de um princípio bastante direto: não deixar passar mais de três dias sem algum tipo de intimidade entre o casal.
Isso não significa necessariamente ter relações sexuais de três em três dias.
A interpretação pode incluir contacto físico, carícias e outras formas de proximidade, dependendo daquilo que ambos consideram íntimo e importante dentro da relação.
A grande diferença está na intenção.
Em vez de esperar que a vontade apareça espontaneamente no meio de uma semana cheia de compromissos, os dois passam a tratar a intimidade como algo que merece espaço e atenção.
A ideia não é propriamente nova
Apesar do nome estar agora a tornar-se popular, o conceito de planear ou estruturar a vida sexual já é discutido há bastante tempo por terapeutas e especialistas em relações.
A VICE, por exemplo, já tinha abordado anteriormente a possibilidade de marcar momentos para ter relações sexuais em relações de longa duração.
Os dados citados neste debate mostram também uma realidade curiosa.
Segundo o Relationship and Intimacy Study 2024, da The Knot, apenas 2% dos casais afirmaram marcar relações sexuais, enquanto 24% disseram estar insatisfeitos com a própria vida sexual.
A regra das 72 horas acaba por recuperar a mesma discussão, mas com uma fórmula muito mais simples de memorizar.
Especialista explica porque pode funcionar
Leigh Norén, terapeuta sexual e coach, explicou à Stylist que criar uma estrutura para a intimidade pode ser útil, sobretudo em relações longas.
Segundo a especialista, a proximidade física, emocional e sexual pode facilmente ser colocada em segundo plano à medida que a vida do casal se torna mais ocupada.
“A intimidade, seja física, emocional ou sexual, pode muitas vezes ficar para trás nas relações de longa duração.”
Norén chama ainda a atenção para uma ideia muito comum criada pelo cinema e pelas histórias românticas: a de que, quando estamos com a pessoa certa, a paixão deverá manter-se automaticamente sem qualquer esforço.
Segundo a terapeuta, isso está longe da realidade.
“Hollywood faz-nos acreditar que, se estivermos com a pessoa certa, não precisamos de trabalhar para manter a intimidade viva. Mas precisamos.”
Para casais que funcionam bem com rotinas, a regra das 72 horas pode assim servir como uma espécie de ponto regular de reconexão, e não como uma obrigação rígida.
Mas há especialistas que alertam para um problema
Nem todos acreditam que colocar um prazo na intimidade seja a solução.
Mariàn Martínez, coach de sexo e relações da Smile Makers Collection, considera que a regra pode estar a tentar resolver o problema errado.
Segundo a especialista, muitos casais não deixam de ter relações sexuais porque simplesmente se esqueceram de as colocar no calendário.
As razões podem ser muito mais profundas.
“A maioria não deixa de ter sexo porque se esqueceu de o colocar na agenda.”
Martínez aponta para fatores como exaustão, ressentimento, afastamento emocional e distribuição desigual da carga mental dentro da relação.
Também pode acontecer que o desejo sexual passe a ser encarado como mais uma obrigação a cumprir.
Nestes casos, acrescentar uma contagem decrescente de 72 horas pode acabar por criar ainda mais pressão.
Uma regra não resolve ressentimentos ou problemas na relação
Se um casal está emocionalmente afastado ou existe um conflito não resolvido, simplesmente decidir ter relações sexuais a cada três dias dificilmente irá eliminar o problema.
Pelo contrário, a regra poderá transformar-se em mais um motivo de frustração.
Uma das pessoas pode começar a sentir que está constantemente a falhar uma obrigação, enquanto a outra pode interpretar o incumprimento como mais uma prova de desinteresse.
É por isso que os especialistas alertam para a necessidade de a regra ser uma decisão conjunta, e não uma exigência imposta por um dos parceiros.
Um estudo encontrou uma relação entre frequência e satisfação
O debate sobre a frequência das relações sexuais também tem sido analisado em estudos sobre satisfação dentro dos relacionamentos.
Um estudo de 2024 realizado na Nova Zelândia concluiu que mulheres que mantinham relações sexuais pelo menos uma vez por semana apresentavam os níveis mais elevados de satisfação na relação.
Os resultados sugerem que poderá existir uma ligação entre frequência sexual e satisfação, pelo menos até determinado ponto.
A regra das 72 horas acaba por colocar muitos casais dentro de uma frequência próxima dessa ordem de grandeza.
No entanto, isso não significa que exista um número perfeito aplicável a todas as relações.
O número 72 pode nem ser a parte mais importante
No fundo, a principal ideia por detrás da tendência pode nem estar relacionada com os três dias.
O verdadeiro objetivo é retirar a intimidade da categoria das coisas que “talvez aconteçam se houver tempo” e colocá-la entre as coisas que ambos decidiram conscientemente proteger.
Para alguns casais, esse intervalo poderá ser de três dias.
Para outros, poderá fazer muito mais sentido uma vez por semana ou com qualquer outra frequência que funcione para ambos.
O mais importante é existir um acordo e não uma imposição.
Então a regra das 72 horas funciona mesmo?
A resposta depende sobretudo do problema que o casal está a tentar resolver.
Se duas pessoas continuam próximas, sentem desejo uma pela outra e simplesmente deixaram a intimidade cair para segundo plano devido à rotina, criar momentos específicos para voltarem a ligar-se pode ajudar.
Se, pelo contrário, existem ressentimentos, conflitos, exaustão extrema ou um afastamento emocional significativo, a regra das 72 horas provavelmente não irá resolver essas dificuldades por si só.
Nesse cenário, tentar cumprir um calendário sexual pode até aumentar a sensação de pressão.
A intimidade não deve transformar-se numa tarefa
Talvez seja precisamente esse o ponto mais importante desta tendência.
Organizar espaço para a relação pode ser útil. Transformar o sexo numa obrigação, não.
A regra parece funcionar melhor quando ambos a encaram como uma oportunidade para voltar a criar proximidade, e não como um prazo que tem obrigatoriamente de ser cumprido.
Assim, mais do que perguntar se um casal deve ter relações sexuais a cada 72 horas, talvez a verdadeira questão seja outra: quanto tempo estão ambos dispostos a reservar, de forma consciente, para continuar a cuidar da intimidade da relação?