Um relatório elaborado pelo WWF e pela Zoological Society of London (ZSL) deixou um aviso particularmente preocupante sobre o futuro do planeta. De acordo com informação citada pelo Daily Star, a combinação entre alterações climáticas provocadas pela atividade humana, destruição dos habitats e perda acelerada de biodiversidade está a colocar uma pressão cada vez maior sobre os sistemas naturais dos quais dependemos.
Os responsáveis pelo estudo chegaram mesmo a utilizar uma expressão difícil de ignorar, alertando que a ausência de medidas suficientemente rápidas está a colocar a vida na Terra “à beira da catástrofe”.
O dado mais impressionante ajuda a perceber a dimensão do problema: segundo o Living Planet Report 2022, as populações monitorizadas de animais selvagens diminuíram, em média, 69% entre 1970 e 2018.
Populações de animais selvagens caíram 69% em poucas décadas
O número é suficientemente elevado para provocar alarme, mas exige uma explicação importante.
Os 69% não significam que 69% de todos os animais do planeta tenham desaparecido. O indicador representa a redução média na abundância das populações de vertebrados monitorizadas pelo Living Planet Index ao longo do período analisado.
Ainda assim, o resultado revela uma deterioração profunda da biodiversidade mundial.
O relatório aponta vários fatores como responsáveis pela situação, incluindo a destruição de habitats, exploração excessiva de recursos naturais, poluição, alterações climáticas e padrões de consumo insustentáveis.
Países mais ricos estão entre os responsáveis pela pressão sobre a natureza
Segundo o estudo citado pelo Daily Star, os padrões de consumo das economias mais ricas desempenham um papel desproporcionado na perda de biodiversidade.
A dependência mundial de combustíveis fósseis como petróleo e gás é igualmente apontada como um dos principais fatores que continuam a acelerar simultaneamente as crises climática e ambiental.
O problema não se limita, portanto, à quantidade de recursos utilizados, mas também à forma como são produzidos, transportados e consumidos.
América Latina e Caraíbas registaram uma queda brutal
Os dados tornam-se ainda mais preocupantes quando são analisadas determinadas regiões do planeta.
Na América Latina e Caraíbas, as populações de animais selvagens monitorizadas sofreram uma redução média de cerca de 94% desde 1970.
É a maior queda registada entre todas as regiões analisadas pelo relatório.
A situação assume particular importância porque esta parte do mundo alberga alguns dos ecossistemas com maior biodiversidade da Terra, incluindo a Floresta Amazónica.
Quando estes ecossistemas perdem espécies e deixam de funcionar normalmente, as consequências podem atingir muito mais do que os próprios animais.
O boto-cor-de-rosa é um dos exemplos mais preocupantes
Entre as espécies referidas encontra-se o boto-cor-de-rosa da Amazónia.
Segundo os dados apresentados, a população monitorizada deste cetáceo na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no estado brasileiro do Amazonas, sofreu uma redução de aproximadamente 65% entre 1994 e 2016.
É apenas um dos muitos exemplos utilizados para mostrar a velocidade com que determinadas populações animais estão a desaparecer.
“Os líderes continuam a ver o nosso mundo arder”
O relatório foi publicado antes da COP27, a Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas realizada no Egito, e apresentou fortes críticas à resposta dos líderes mundiais.
Tanya Steele, responsável do WWF no Reino Unido, deixou na altura uma declaração particularmente dura.
“Apesar da ciência, das projeções catastróficas, dos discursos e das promessas, os líderes mundiais continuam a ver o nosso mundo arder diante dos nossos olhos.”
Steele apontou para incêndios florestais, temperaturas recorde, territórios inundados e milhões de pessoas deslocadas como sinais de que as alterações climáticas e a perda de biodiversidade já não podem ser consideradas ameaças distantes.
A crise climática e a crise da natureza estão ligadas
Uma das principais mensagens do relatório é precisamente que não é possível separar as alterações climáticas da destruição da natureza.
Florestas, oceanos, solos e outras áreas naturais desempenham um papel essencial na regulação do clima e na absorção de dióxido de carbono.
Ao mesmo tempo, temperaturas mais elevadas, secas, incêndios e fenómenos meteorológicos extremos destroem habitats e aumentam ainda mais a pressão sobre espécies já vulneráveis.
As duas crises acabam assim por alimentar-se mutuamente.
O impacto também pode chegar à alimentação e à economia
O alerta dos investigadores não está relacionado apenas com a preservação de espécies animais.
Os ecossistemas fornecem serviços essenciais para a vida humana, incluindo água, produção de alimentos, polinização, solos férteis e proteção contra fenómenos extremos.
Uma degradação suficientemente profunda destes sistemas pode, por isso, acabar por afetar diretamente a economia, a agricultura, as habitações e os meios de subsistência de milhões de pessoas.
Foi precisamente isso que levou Tanya Steele a alertar para um planeta progressivamente mais quente onde a natureza poderá deixar de conseguir sustentar muitas das atividades humanas da forma como acontece atualmente.
O Reino Unido também surge com números preocupantes
Apesar de algumas das quedas mais dramáticas acontecerem em regiões tropicais, o problema está longe de ficar limitado a esses locais.
O relatório chama também a atenção para o chamado Biodiversity Intactness Index, utilizado para avaliar até que ponto a biodiversidade original de uma determinada região permanece intacta.
De acordo com os dados citados, o Reino Unido conserva aproximadamente metade da sua biodiversidade histórica, colocando o país entre aqueles que apresentam uma forte degradação dos ecossistemas naturais.
WWF pede recuperação urgente dos ecossistemas
Perante os números apresentados, o WWF pediu aos governos que reforçassem as políticas de conservação e recuperação da natureza, especialmente nas regiões tropicais onde as perdas são mais acentuadas.
No entanto, a organização sublinhou que proteger apenas algumas áreas não será suficiente.
As medidas terão de ser acompanhadas por reduções das emissões, alterações nos padrões de produção e consumo e cumprimento dos compromissos internacionais relacionados com clima e biodiversidade.
A dependência dos combustíveis fósseis continua no centro do problema
O relatório também surgiu numa altura em que a dependência mundial de gás e petróleo estava sob forte escrutínio.
A guerra na Ucrânia voltou a demonstrar como o abastecimento energético pode ser utilizado como instrumento geopolítico e como oscilações no fornecimento de gás conseguem provocar grandes aumentos nos preços da energia.
Perante esta situação, países europeus intensificaram investimentos em fontes alternativas, incluindo energia solar, eólica e nuclear.
Renováveis podem ajudar tanto o clima como a segurança energética
O crescimento das energias renováveis não é visto apenas como uma ferramenta de combate às alterações climáticas.
Reduzir a dependência de combustíveis importados pode também aumentar a segurança energética e diminuir a exposição a oscilações extremas nos mercados internacionais.
O texto citado pelo Daily Star refere ainda estudos que, no contexto dos preços extremamente elevados do gás naquele período, apontavam para custos substancialmente inferiores na produção de eletricidade através de determinadas fontes renováveis, como a energia eólica offshore.
A Terra está mesmo perto do “fim do mundo”?
Apesar da linguagem alarmante utilizada em torno do relatório, os cientistas não estão a afirmar que o planeta vai acabar numa determinada data.
O alerta refere-se ao risco de degradação acelerada dos sistemas naturais e às consequências potencialmente graves que isso poderá ter para espécies, ecossistemas e sociedades humanas.
A Terra continuará a existir. A questão é em que condições estarão os ecossistemas dos quais a humanidade depende.
O número que deixa o aviso impossível de ignorar
A conclusão mais inquietante continua a estar nos dados: uma queda média de 69% nas populações monitorizadas de animais selvagens desde 1970 e um declínio de cerca de 94% na América Latina e Caraíbas.
Para o WWF e a Zoological Society of London, estes números demonstram que não estamos perante um problema reservado às gerações futuras.
É uma transformação que já está em curso e que poderá tornar-se muito mais difícil de inverter se as medidas de proteção da natureza e redução das alterações climáticas continuarem a ser adiadas.
O verdadeiro aviso deste relatório não é, portanto, que o mundo vai terminar amanhã. É que continuar a perder natureza ao ritmo atual pode aproximar os ecossistemas de pontos a partir dos quais recuperar será cada vez mais complicado.