O aumento das tensões entre a Rússia e a NATO voltou a levantar uma das questões mais inquietantes dos últimos anos: se uma guerra nuclear começasse na Europa, quais seriam os países com maiores hipóteses de escapar ao impacto inicial?
Segundo uma análise citada pelo AS e recuperada pela imprensa internacional, existem enormes diferenças entre os vários países europeus devido à localização geográfica, importância estratégica e presença de infraestruturas militares.
E há uma conclusão que poderá surpreender muitos portugueses: Portugal aparece entre os países potencialmente mais seguros numa primeira fase de um conflito nuclear na Europa.
Isso não significa, contudo, que o território português ficasse protegido das consequências de uma guerra desta dimensão.
Portugal e Irlanda aparecem entre os países potencialmente mais seguros
A principal vantagem de Portugal e Irlanda estaria na localização geográfica.
Ambos se encontram no extremo ocidental da Europa e relativamente afastados de vários dos pontos considerados mais prováveis como alvos prioritários num conflito entre grandes potências.
Essa distância poderia reduzir a probabilidade de sofrer diretamente o impacto inicial de uma arma nuclear, dependendo naturalmente da dimensão e dos objetivos do conflito.
É precisamente por esse motivo que Portugal aparece frequentemente em listas de países europeus considerados relativamente mais seguros num cenário extremo deste género.
Mas existe um enorme problema: nenhum país estaria verdadeiramente seguro
Apesar de Portugal poder apresentar uma vantagem geográfica, especialistas alertam que não existe um país europeu completamente protegido das consequências de uma guerra nuclear.
Os efeitos não ficariam limitados às zonas diretamente atingidas.
Material radioativo poderia ser transportado pela atmosfera durante grandes distâncias, dependendo da intensidade das explosões, altitude, direção dos ventos e condições meteorológicas.
Além disso, um conflito nuclear de grande escala teria consequências económicas, alimentares, energéticas e ambientais muito além das regiões diretamente atacadas.
A radiação poderia atravessar fronteiras
O chamado fallout nuclear representa precisamente uma das maiores dificuldades quando se tenta definir um país como totalmente “seguro”.
Depois de uma explosão nuclear, partículas radioativas podem ser lançadas para a atmosfera e posteriormente depositadas em regiões situadas a centenas ou até milhares de quilómetros.
Por esse motivo, estar longe da explosão inicial não significa necessariamente escapar às consequências.
A direção do vento nas horas e dias seguintes poderia tornar-se um fator decisivo.
Alemanha, Polónia e Itália aparecem entre os locais de maior risco
No extremo oposto surgem países como Alemanha, Polónia e Itália.
Segundo a análise citada, a combinação entre localização geográfica, importância estratégica e papel desempenhado dentro da NATO poderia torná-los mais vulneráveis num cenário de escalada nuclear.
A existência de bases militares, infraestruturas logísticas, centros de comando e outras instalações estratégicas aumenta potencialmente a importância destes territórios durante um conflito de grandes dimensões.
Estados bálticos estariam numa posição particularmente vulnerável
Se um eventual ataque tivesse origem na Rússia, os três Estados bálticos, Estónia, Letónia e Lituânia, encontrar-se-iam numa das posições geográficas mais delicadas.
A proximidade do território russo significa que estas regiões poderiam enfrentar consequências particularmente graves numa escalada militar.
Os três países são também membros da NATO, pelo que qualquer ataque contra um deles teria implicações muito além das suas fronteiras.
Nem a tradicional neutralidade garantiria proteção
Países como Suíça e Áustria são muitas vezes apontados como potenciais refúgios devido à tradição de neutralidade.
No entanto, especialistas alertam que uma guerra nuclear não respeitaria necessariamente fronteiras políticas.
Mesmo que estes países não fossem diretamente atacados, poderiam enfrentar contaminação radioativa, interrupções no abastecimento, colapso das redes de transporte e graves problemas económicos.
A Suíça possui ainda uma extensa rede de abrigos de proteção civil, mas nem isso seria suficiente para eliminar todas as consequências de um conflito nuclear de larga escala.
Se a NATO fosse diretamente atacada, o risco aumentaria drasticamente
Uma das variáveis mais importantes seria a própria natureza do conflito.
Se os ataques fossem dirigidos especificamente contra a NATO, a quantidade de possíveis alvos aumentaria significativamente.
Portugal também é membro da aliança, pelo que o facto de estar geograficamente afastado do leste europeu não significa que ficasse automaticamente excluído de qualquer risco.
A presença de infraestruturas estratégicas e a utilização do território em operações da aliança poderiam influenciar o cálculo de eventuais alvos.
Os receios aumentaram depois de novas informações sobre Putin
Esta discussão voltou a ganhar força depois de o Wall Street Journal noticiar que informações dos serviços de inteligência norte-americanos apontariam para a possibilidade de Vladimir Putin testar a capacidade de resposta da NATO através de uma incursão limitada contra um país da aliança nos próximos anos.
Uma operação limitada seria muito diferente de uma guerra nuclear, mas a possibilidade de um confronto direto entre Rússia e NATO é precisamente aquilo que aumenta os receios de uma escalada posterior.
Uma misteriosa reunião em Moscovo aumentou ainda mais a especulação
O assunto ganhou ainda mais atenção depois de o diretor da CIA, John Ratcliffe, se ter deslocado recentemente a Moscovo para uma reunião cujos detalhes não foram publicamente revelados.
Nem o Kremlin nem Washington divulgaram informações completas sobre aquilo que foi discutido.
O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, descreveu a deslocação como algo realizado numa base “mais ou menos rotineira” e afirmou que poderia resultar alguma coisa daqueles contactos.
A ausência de detalhes alimentou inevitavelmente especulações sobre o objetivo da reunião.
O Kremlin rejeita a ideia de que esteja a preparar um ataque à NATO
A Rússia rejeitou, entretanto, as informações que sugerem que poderá estar a preparar uma ofensiva contra um membro da NATO.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, classificou este tipo de relatos como alarmismo e negou que correspondam às intenções russas.
“Muito deste tipo de material alarmista está a ser publicado neste momento. Não tem nada a ver com a realidade nem com as intenções da Federação Russa.”
Peskov negou igualmente que a recente reunião em Moscovo tivesse como objetivo transmitir um aviso norte-americano contra um eventual ataque russo à aliança.
Portugal estaria realmente protegido?
Comparativamente com países situados no centro e leste europeu, Portugal beneficia claramente da sua posição periférica.
Num cenário limitado, essa localização poderia diminuir bastante a probabilidade de o território ser diretamente atingido nas primeiras fases.
Mas classificar Portugal simplesmente como “seguro” seria enganador.
Uma guerra nuclear de grandes dimensões poderia afetar o funcionamento das economias europeias, cadeias de abastecimento, comunicações, energia, transportes e produção de alimentos.
E num cenário extremo envolvendo numerosas armas nucleares, os impactos ambientais poderiam assumir uma dimensão global.
O local exato faria toda a diferença
Mesmo dentro do mesmo país, o risco não seria igual em todo o território.
A proximidade de grandes cidades, instalações militares, portos estratégicos, aeroportos, centros governamentais ou infraestruturas energéticas poderia influenciar significativamente o nível de exposição.
Também a distância em relação ao ponto de detonação teria um impacto enorme nos efeitos sentidos pela população.
É por isso que os especialistas consideram impossível responder à pergunta sobre “qual é o país mais seguro” sem conhecer previamente a localização e dimensão dos ataques.
Portugal está entre os melhores posicionados, mas não existe um verdadeiro refúgio
Entre os países europeus, Portugal e Irlanda surgem como dois dos territórios que poderiam ter melhores hipóteses de evitar os primeiros impactos de uma eventual guerra nuclear, sobretudo devido à distância dos principais focos de tensão no leste europeu.
Alemanha, Polónia, Itália e os países bálticos seriam potencialmente mais vulneráveis devido à localização e importância estratégica.
Contudo, a conclusão dos especialistas é bastante menos tranquilizadora do que uma simples lista de países seguros poderia fazer parecer.
Numa guerra nuclear de grande escala, nenhuma fronteira europeia garantiria proteção total. Mesmo os territórios que escapassem às explosões iniciais poderiam enfrentar radiação, perturbações económicas e consequências ambientais potencialmente devastadoras.
Portugal pode estar geograficamente melhor colocado do que muitos países europeus, mas num cenário nuclear realmente grave, a distância dos primeiros alvos seria apenas uma parte de um problema muito maior.