Guerras, calor extremo, rios a desaparecer e antigas passagens da Bíblia estão novamente a alimentar teorias sobre o fim do mundo.
Nos últimos meses, vários acontecimentos internacionais foram associados por alguns grupos religiosos e seguidores de profecias bíblicas a sinais do chamado Armagedão, incluindo a descida preocupante do nível da água no rio Eufrates.
O fenómeno ganhou ainda mais atenção devido a uma passagem do Livro do Apocalipse que refere precisamente a secagem deste rio antes de acontecimentos ligados ao fim dos tempos.
O Eufrates está a perder água e a Bíblia fala exatamente disso
O rio Eufrates atravessa a Turquia, Síria e Iraque e é um dos cursos de água mais importantes da história da civilização.
Nos últimos anos, os níveis de água têm diminuído significativamente em várias zonas, devido a uma combinação de seca, alterações climáticas, gestão de barragens e aumento da pressão sobre os recursos hídricos.
Mas para quem interpreta determinados acontecimentos através da Bíblia, existe outro detalhe impossível de ignorar.
No Apocalipse 16:12, é descrito um cenário em que as águas do Eufrates desaparecem.
“O sexto anjo derramou a sua taça sobre o grande rio Eufrates, e a sua água secou para preparar o caminho para os reis do Oriente.”
A passagem foi rapidamente associada ao fim dos tempos
A ligação entre o estado atual do Eufrates e esta passagem bíblica tornou-se viral nas redes sociais.
Para alguns crentes, a coincidência é encarada como um possível sinal de que acontecimentos profetizados há milhares de anos estarão a aproximar-se.
Outros recordam, porém, que o rio já sofreu fortes variações de caudal em diferentes períodos históricos e que existem explicações ambientais e políticas muito concretas para a situação atual.
Guerras e tensão internacional aumentam ainda mais o medo
As teorias ganharam força numa altura em que o mundo continua marcado por conflitos e fortes tensões geopolíticas.
As ameaças trocadas entre grandes potências e o receio recorrente de uma guerra de maiores dimensões são frequentemente associados por grupos apocalípticos às descrições bíblicas de conflitos antes do fim dos tempos.
Esse ambiente faz com que qualquer acontecimento invulgar seja rapidamente interpretado como mais uma peça de um suposto padrão profético.
Uma serpente no Muro das Lamentações também já provocou teorias
Não é a primeira vez que um acontecimento aparentemente banal provoca uma onda de especulação religiosa.
Em 2018, uma serpente apareceu entre as antigas pedras do Muro das Lamentações, em Jerusalém, assustando uma pomba.
O episódio foi interpretado por alguns observadores religiosos como um possível símbolo relacionado com a chegada do Messias.
A associação surgiu devido à presença da serpente em narrativas bíblicas, nomeadamente no Livro do Génesis, onde representa tentação e mal.
Depois veio a febre do “arrebatamento”
Outra onda de teorias ocorreu em setembro do ano passado, quando um pastor conhecido como Mr Joshua afirmou ter recebido uma mensagem divina sobre aquilo que muitos cristãos chamam de “arrebatamento”.
Segundo o pastor, teria sido informado de que Jesus regressaria para buscar os fiéis nos dias 23 e 24 de setembro.
A declaração provocou enorme agitação nas redes sociais.
“Há uma data?”
Durante a entrevista em que fez a alegação, o apresentador reagiu com surpresa quando percebeu que o pastor estava a indicar datas concretas.
A conversa rapidamente passou para uma discussão sobre o arrebatamento e aquilo que poderia acontecer depois.
Segundo algumas correntes cristãs, os crentes seriam retirados da Terra antes de um período de sofrimento conhecido como Tribulação.
O que é o arrebatamento?
O conceito de arrebatamento é particularmente popular em certas correntes do cristianismo evangélico.
A interpretação defende que os verdadeiros crentes seriam levados para junto de Cristo antes de um período de caos e sofrimento na Terra.
Depois desse período, ocorreria o regresso de Jesus e o estabelecimento de uma nova era.
No entanto, esta interpretação não é aceite da mesma forma por todas as denominações cristãs.
A previsão falhou, mas nasceu o “RaptureTok”
Os dias 23 e 24 de setembro chegaram e passaram sem que acontecesse qualquer arrebatamento.
Mas antes disso, a previsão já tinha criado um verdadeiro fenómeno nas redes sociais.
No TikTok, centenas de utilizadores começaram a publicar vídeos sobre aquilo que deveriam fazer para se prepararem.
O fenómeno chegou mesmo a ganhar o nome informal de “RaptureTok”.
Até houve quem perguntasse o que aconteceria aos animais de estimação
Entre as perguntas mais curiosas estavam dúvidas sobre se cães e gatos também seriam levados durante o arrebatamento.
Alguns utilizadores chegaram a publicar orações para que os seus animais de estimação fossem levados juntamente com eles.
A previsão acabou por não se concretizar, mas demonstrou a rapidez com que este tipo de teoria pode ganhar dimensão nas redes sociais.
Porque o Eufrates tem tanta importância bíblica?
O Eufrates aparece várias vezes na Bíblia e atravessa uma região historicamente conhecida como o Crescente Fértil.
Esta zona foi palco de algumas das primeiras grandes civilizações humanas e ocupa um lugar importante em várias tradições religiosas.
Por isso, alterações significativas no rio facilmente assumem um significado simbólico para quem interpreta os textos religiosos de forma profética.
Mas há explicações reais para a diminuição do rio
Apesar das teorias, a redução do caudal do Eufrates não é um fenómeno inexplicável.
A região tem sofrido períodos severos de seca, temperaturas elevadas e crescente pressão sobre os recursos hídricos.
Barragens construídas ao longo do rio também influenciam a quantidade de água que chega a determinadas regiões.
Ou seja, o facto de o Eufrates estar a perder água não constitui por si só evidência de uma profecia bíblica em curso.
Profecias ganham força quando o mundo atravessa períodos de crise
Historicamente, previsões sobre o fim do mundo tornam-se mais populares durante períodos marcados por guerras, epidemias, catástrofes naturais ou grandes mudanças sociais.
Quanto maior é a sensação de instabilidade, mais fácil se torna relacionar acontecimentos atuais com textos religiosos antigos.
É precisamente isso que está novamente a acontecer.
Estamos mesmo perante sinais do Armagedão?
Não existe qualquer prova científica de que a diminuição do Eufrates, conflitos internacionais ou acontecimentos simbólicos sejam sinais de que o mundo está prestes a acabar.
As interpretações dependem da fé, da tradição religiosa e da forma como cada pessoa lê as passagens bíblicas.
Além disso, ao longo da história foram anunciadas inúmeras datas para o fim do mundo e nenhuma se concretizou.
O rio continua a preocupar, mas por razões muito concretas
Independentemente das interpretações religiosas, a situação do Eufrates é realmente preocupante.
Milhões de pessoas dependem das suas águas para agricultura, consumo e atividades económicas.
Uma redução prolongada pode provocar insegurança alimentar, deslocação de populações e novas tensões entre países que partilham os mesmos recursos.
Essas consequências são reais e não precisam de qualquer explicação sobrenatural.
O fim do mundo continua sem data marcada
Para os seguidores das teorias apocalípticas, a combinação de conflitos, alterações climáticas e o enfraquecimento do Eufrates parece formar um quadro inquietante.
Para os céticos, trata-se apenas de mais uma tentativa de adaptar acontecimentos modernos a textos escritos há muitos séculos.
Uma coisa é certa: o arrebatamento anunciado para setembro não aconteceu e não existe qualquer evidência verificável de que o Armagedão esteja iminente.
Mas enquanto o Eufrates continuar a perder água e o mundo permanecer mergulhado em conflitos e fenómenos extremos, é provável que as teorias sobre os “sinais bíblicos do fim” continuem a multiplicar-se.